Final da Libertadores em jogo único: o dano ao torcedor

Como uma final de jogo único na Libertadores fere o torcedor?


A Conmebol anunciou na tarde de hoje, 23/02, que a partir de 2019 a final da Copa Libertadores acontecerá em jogo único. Nos objetivos da entidade encontram-se justificativas como levar um evento grandioso como esse para países neutros frente aos finalistas.

A justificativa é que competições desse porte teriam pouca probabilidade de acontecer devido ao nível técnico das equipes locais que concorrem – como é o caso do Peru, primeiro país cogitado a ser sede. É utilizado como comparativo o exemplo de finais que já acontecem dessa forma, como a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes. No entanto, a situação socioeconômica e estrutural da maioria dos países que fazem parte da Copa Libertadores não favorece uma comparação organizacional frente às outras competições.

Claramente quando falamos em benefícios para a cidade e o turismo em geral, o alcance de uma final desse porte causaria um efeito benéfico e magnífico para o local. Seria um “boom” turístico, onde proporcionaria maior rentabilidade para as redes de hotelaria e alimentícias, bem como um todo, ainda que precise caminhar muito em relação à estrutura e preparo para a realização de algo assim. Mas agora eu pergunto o que, pelo menos para mim, é o que realmente importa: e o torcedor? Qual é o benefício que isso lhe causa?

Imagine só: você, torcedor de qualquer um dos sete times brasileiros classificados para a competição em 2018. Na dedução de uma probabilidade muito alta, você deve trabalhar como quase todo mundo – de segunda à sexta (quando não sábado) das 08h às 18h. Você não perde uma segunda, terça, quarta, quinta-feira, sábado e domingo de futebol em geral, quem dirá do seu time. Você, como todo torcedor brasileiro apaixonado, sonha com a taça da Libertadores – afinal é um título primordial para os clubes – e tem a oportunidade de assistir o jogo na sua casa que é o SEU ESTÁDIO.

Vamos a fundo em questões geográficas. O Brasil é um país com uma área de aproximadamente 8 milhões de quilômetros quadrados. Torcedores gaúchos, mineiros, paulistas e cariocas, que são os participantes da edição 2018, estão espalhados pelo Brasil inteiro. A chance de um torcedor que mora longe do estado de origem de seu time viajar para outra cidade a fim de vê-lo jogar em casa, com mando de campo e torcida “entupida” de fanáticos arrepiados pela emoção de uma final de campeonato, é disparadamente maior que a de uma viagem para outro país.

Quantas histórias e relatos não ouvimos, em campeonatos desse porte, de pessoas que se desdobram para viajar, passam a noite em claro para no outro dia voltarem o mais cedo possível porque precisam trabalhar? Ou pessoas que fazem promessas para seus chefes – e até para santo – mendigando por uma folga ou umas horinhas para compensar depois, tudo com o objetivo de fazer-se presente em um jogo de sensação tão única, tão intensa, tão... Faltam palavras.

E agora, visando exclusivamente o benefício de uma cidade e o alcance do futebol à outra população – que realmente sinto muito pela ausência de qualidade futebolística – o torcedor é quem paga? É como parar de fornecer bons colégios porque outras pessoas não têm acesso à educação. Sim, eu estou fazendo essa comparação, porque não se deve tirar o que é bom e proveitoso de um para oferecer a outro, mas sim trabalhar em busca da melhoria geral.

Em minha visão, não há lado positivo para nós torcedores apaixonados, infelizmente, e mesmo assim teremos que pagar o preço literalmente se quisermos seguir nossos times. E uma final de Libertadores é ainda o primeiro passo quando lembramos que, caso vencedores, o Mundial de Clubes é a etapa final.
Final da Libertadores em jogo único: o dano ao torcedor Final da Libertadores em jogo único: o dano ao torcedor Reviewed by Heloisa Anzilago on 2/23/2018 04:58:00 PM Rating: 5