Brasil não encanta, mas continua como um dos favoritos

Para quem está acostumado com o bom futebol apresentado pela seleção brasileira, o nível apresentado nos três primeiros jogos da Copa deixou a desejar.



Em um mundial que países sem tradição estão dando trabalho para gigantes, o Brasil sofre, assim como sofreram França, Argentina e a própria Alemanha, eliminada precocemente na fase de grupos. É óbvio que cada seleção e seus respectivos adversários possuem suas particularidades, mas, em praticamente todos os casos, fica claro a dificuldade de furar as linhas de defesa de quem se propõe a jogar com menos posse de bola. 

Suécia, Irã e Costa Rica deram trabalho para Alemanha, Espanha e Brasil, respectivamente, que mesmo com um aparente controle de jogo, tiveram muitas dificuldades para furar as retrancas montadas.
Se analisarmos, os gols brasileiros saíram de jogadas completamente diferentes uma das outras. Coutinho contra a Suíça arriscou de fora da área, já diante da Costa Rica a bola entrou em um cruzamento na área. Neymar balançou as redes em um contra ataque, enquanto Thiago Silva de bola parada e Paulinho em uma infiltração. Para quem vê o copo meio cheio, mostra o grande leque de alternativas ofensivas dos comandados de Tite. Para quem vê o copo meio vazio (como é o meu caso), trata-se de uma equipe que não consegue envolver o oponente e abrir defesas através do toque de bola.

William e Paulinho estão sendo criticados exatamente por isso. Se pela esquerda, a ofensividade de Marcelo combinada com a visão de jogo de Coutinho e o drible e a velocidade de Neymar vem dando certo, pela direita as características são totalmente diferentes. Fagner ainda está se adaptando a uma Copa do Mundo e procura se dedicar mais a defender, enquanto Paulinho é um jogador de infiltração e não de armação e William fica isolado no setor, muitas vezes sem opções para criar jogadas coletivas.

Outro ponto negativo a destacar é a enorme quantidade de lesões que atinge o elenco, inclusive o maior craque dele: se em 2014, Neymar era a grande referência técnica brasileira (4 gols somente na fase de grupos), em 2018 o atleta fraturou o quinto metatarso direito meses antes da convocação final e preocupou toda a comissão técnica e milhões de torcedores. Renato Augusto, conhecido já no departamento médico pelo seu alto histórico de lesões, flertou com o corte após inflamação no joelho esquerdo durante a preparação. Já na Rússia, Danilo sentiu o quadril em treinamentos e Marcelo reclamou de dores na coluna contra a Sérvia.
Ainda sem ritmo de jogo por conta da lesão e sem atuar bem, a grande estrela do elenco continua sendo Neymar. Muito criticado pelo seu temperamento dentro de campo, sofre piada até mesmo dos brasileiros na internet, que dão risada de seu jeito “cai-cai”. De fato, o camisa 10 ainda segura muito a bola em determinados momentos e ainda não fez um excelente jogo na Rússia, apesar do gol marcado diante da Costa Rica. Com isso, outros protagonistas vão surgindo para dividir a responsabilidade com a estrela do PSG: Thiago Silva, também do Paris Saint Germain, parece ter dado a volta por cima definitivamente após ser muito criticado na última Copa. O zagueiro reassumiu a vaga de titular e vem passando confiança a defesa com seu ótimo posicionamento, tanto na defesa como no ataque.

Já Philippe Coutinho merece um paragrafo a parte. O ex-vascaino é, sem dúvidas, o melhor jogador da Canarinho até então. Decisivo em toda a fase de grupos, sua presença foi fundamental para o tento de Paulinho contra os sérvios. Na estreia, o pior jogo do Brasil na Copa, Coutinho se aproveitou de uma de suas maiores qualidades para abrir o placar. De longe, balançou as redes do goleiro Sommer. Na dramática partida contra a Costa Rica, saiu do bico do pé direito do meia brasileiro o gol que finalmente conseguiu furar a retranca de Navas e companhia. Diante da Sérvia, sua enfiada de bola para Paulinho quebrou a defesa adversária. Para tentar consertar o lado direito do ataque, até já foi cogitado mudar o camisa 11 de posição. No entanto, será que Tite terá a coragem de mudar o que mais está dando certo em seu time?

Convenhamos também que o grupo do Brasil não era o dos mais fáceis. Se o grande destaque da competição até o momento vem sendo a Bélgica, muito se deve ao fato de estar ao lado das “poderosas” seleções de Tunísia e Panamá – derrotadas por 5 a 2 e 3 a 0, respectivamente. Na vitória contra a Inglaterra, os dois times reservas em campo escondem ainda o real potencial dos belgas. Enquanto isso, o Grupo E, em que fomos sorteados, tinha a Costa Rica, sensação de 2014, além da Sérvia de Kolarov, Matić e Ivanović e da Suíça, 6ª colocada no ranking da FIFA.

Hexa é realidade?


Se nas redes sociais, o clima de euforia já está instaurado antes mesmo da Copa começar, dentro dos gramados russos a realidade é um pouco diferente. O Brasil tem sim motivos para acreditar no título, porém ele não virá tão fácil como muitos imaginam. Nas oitavas-de-final, o México já provou ser um adversário duro com a vitória sobre a Alemanha e detém um retrospecto recente positivo contra nós brasileiros – 2 a 1 na final do futebol masculino nas Olímpiadas de 2012 e um duro 0 a 0 na Copa de 2014.
A França, possível rival na semifinal, foi campeã em 1998 contra a nossa seleção (Goal) 
Do nosso lado do chaveamento, a Bélgica é o nosso provável rival em uma hipotética quartas de final e na semi, podemos enfrentar as campeões França, Argentina ou Uruguai, além da atual campeã da Euro, Portugal.

Retrospecto em Copas do Mundo


X Argentina X França X Uruguai X Portugal


4 jogos 4 jogos 2 jogos 2 jogos


Duas vitórias (1974,1982) Uma vitória (1958) Uma vitória (1970) Um empate (2010)


Um empate (1978) Um empate (1986) Uma derrota (1950) Uma derrota (1966)


Uma derrota (1990) Duas derrotas (1998, 2006)


A eliminação precoce da Alemanha também é um motivo a se comemorar. Com os atuais campeões do Mundo fora da disputa, um possível duelo entra brasileiros e alemães já está fora de cogitação e não será criado pela mídia uma espécie de clima de revanche do 7 a 1. Se o Brasil não apresenta um futebol de encher os olhos, o que pode ser celebrado é que nenhuma seleção está fazendo isso. A Argentina lutou muito para alcançar a segunda colocação de sua chave e perdeu para os franceses, a Espanha até fez uma boa atuação contra Portugal, mas diante de Irã e Marrocos deixou a desejar e já está fora, a França apesar de toda a badalação de sua ótima geração, ainda não mostrou no gramado verde toda essa qualidade vista no papel. Portanto, sonhar com o título nunca foi e não é bobagem, ainda mais agora que faltam somente quatro decisões.

Além disso, Neymar sentiu dores na fase de grupos e deve ter finalmente seu primeiro jogo 100% fisicamente exatamente contra os mexicanos na próxima segunda-feira. William é outro que tem potencial para render mais do que vem rendendo. Com o crescimento individual desses jogadores, é natural que o coletivo da seleção possa fluir melhor e o futebol apresentado seja mais parecido com o que encantou os torcedores nas eliminatórias, sobretudo nas vitórias de 3 a 0 na Argentina e 4 a 1 no Uruguai em pleno Centenário.

Por: Matheus Moura
Brasil não encanta, mas continua como um dos favoritos Brasil não encanta, mas continua como um dos favoritos Reviewed by Matheus Moura on 7/02/2018 10:28:00 AM Rating: 5